domingo, setembro 08, 2013

Grito de derrota

Sou um discrente. Não acredito em derrotas silenciosas. Uma derrota leva sempre a um grito de raiva. Qualquer que seja a mesa de onde nos levantamos, se o levantar for causado por um desconforto, aquilo que está em causa não é o silencio com que agimos, mas qual das vozes usamos para libertar o grito. Entre o sair de gritos sonoros expulsos por pulmões destroçados e o sair com gritos silenciados pelo cranio que nos esmaga o cerebro pensante, apenas e somente muda a aparência exterior do nosso sentimento.

Lá dentro... cá dentro, a vontade de perder a cabeça vive gritemos mudos ou exuberantes. Cá dentro, resta uma réstia de vingança por matar.

quarta-feira, julho 31, 2013

Viajante de destinos ocos

Quem és tu, perseguidor de sonhos? Quem és tu, ó viajante caixeiro de mochila nas costas casadas, sem rumo e sem caminho? Não anseies por chegar ao destino que nem tu sabes qual é. Se te conduzes no sabor do vento, o teu porto de abrigo pode estar tão perto ou tão longe como o deserto que te matará de sede. És tu quem tem de calçar os sapatos e correr pela estrada. É a ti que é imposta a missão de construír a tua cabana junto à praia. O que esperas tu? Arregaça às mangas. Constrói algo mais que mesas para refeições rápidas. Constrói algo permanente. Pisa com força o chão que se ajoelha perante ti e marca para sempre a tua pegada num dos mundos que vivem para que tu possas vive-los.

segunda-feira, julho 29, 2013

Refugio

Apetece-me sair. Levantar-me da cadeira que se acomoda diante da mesa, que se quieta sob um chapéu de sol, em plena noite de Verão. Levantar-me do sofá que se instalou em frente da televisão, que se aviva com as cores do filme que é lido no leitor, que se adormeceu no móvel da sala. Apetece-me virar costas e sair. Deixar para trás quem quer ficar lá atrás. Deixar sentado quem sentado está. Deixar quem está onde quer estar. Apetece-me correr pela noite amena, voando na brisa suave que levanta, num sopro arrepiante, os pelos dos braços.

Apetece-me conduzir, no carro preto, a estrada coberta de alcatrão escuro, nesta noite de lua ausente, até à serra sombria que chama junto ao mar que negro está. Apetece-me pisar a areia e contemplar o escuro do rio, a ondular no sombrio areal deserto. Apetece-me unir-me aos meus pensamentos, sozinho, fechado nesse fluxo constante de ideias sem nexo, procurando um caminho que talvez não exista. Sinto-me morto e apetece-me reencontrar-me. Apetece-me saber qual o meu novo lugar na equação, mantendo-me num canto escuro. Sou um cobarde! Preso na minha caverna a olhar para a noite lá fora, de rabo entre as pernas. Com medo de sair de novo, acreditando que posso ser parte do que não sou.

domingo, julho 28, 2013

Oposição

Há aqueles que se calam e há aqueles que calados ou falando, atropelam os outros. Há uns que viram costas e se vão embora e outros há que se deixam ficar como se fosse impossível algo abalar a sua quietude.

Nunca estamos bem com os outros. Nunca aceitamos bem os outros. Ora professamos uma fé evangelizando os outros com uma cruz e uma espada, ora colonizamos povos tribais enforcando-os nos cabos do progresso tecnológico, ora invadimos aqueles cuja politica diverge da nossa. Somos perfeitos a errar e a falhar. Somos os melhores a ter uma opinião e a defende-la contra tudo e contra todos, sempre para erguer a nossa bandeira, qualquer que seja a raça, a nação, o país, a religião ou a ideologia que se inscreva na bandeira.

segunda-feira, julho 01, 2013

Só ficar

Não queres subir ao telhado, para abraçar a noite e contemplar as estrelas?

No calor do sopro do vento que arrefece a noite já amena, podes escutar, com prazer, o grito mudo da paz que se instala em ti. Vives paz sempre que te transformas em sorriso.

No fundo, o universo sabe retribuir-te aquilo que lha dás: um sorriso pelo conforto da paz, determinação por um mundo de árvores e esquilos, curiosidade por oceanos de água serenas e aves sonoras... e das-lhe amor em troca de amor e vida para senti-lo.

domingo, junho 23, 2013

Tentativa

Pela terceira vez, esta folha escrita é invocada. Pela terceira vez, a folha encontrava-se em branco e por duas destas três vezes, em branco foi mantida e descartada. Três vezes é sinal que tenho algo a dizer, apenas não sabia ainda bem o que, nas duas primeiras vezes que me decidi a desistir.

O que falta na ponta dos dedos que escrevem estas ideias soltas, não são temas para serem postos em papel. A primeira ida à praia do ano, após um confronto interno sobre a questão do ir ou não ir. Os amores e desamores de quem se senta sistematicamente numa das pontas da quadrada mesa que se instala no café... ou os amores e desamores de quem apenas agora se começa a sentar... ou os amores e desamores de quem decidiu, por amor, deixar de se sentar... ou os amores e desamores de quem, por vontade, opção ou proibição, nunca se sentou.

Muito amor e desamor anda por aí...

quarta-feira, junho 19, 2013

Eureka

Há dias, em que o barulho do tiq-taq é oprimido pelo silencio da voltagem aplicada à tina onde moléculas de DNA são empurradas-puxadas ou pelas forças Gs provocadas pelo girar energético de uma centrifugadora.

Por vezes, perco-me nos quilómetros que piso entre os dois laboratórios que se separam fisicamente por meia dúzia de metros. Num dia em que 8 horas são passadas a fazer os mesmos procedimentos, com um sucesso apenas parcial, esqueceria-me de almoçar se não fosse o convite dos meus colegas. E como só somos convidados para algumas coisas, muito daquilo que é fundamental, mas pessoal, fica esquecido, como beber um copo de água, ou subir as escadas que me levam à wc.

E tudo até poderia ser, de uma forma ou de outra, uma coisa gira. Uma aproximação à minha vontade de ser realmente um cientista maluco (e lunático)... mas para isso é preciso que as coisas funcionem bem para que eu não passe pelos corredores irritado com o sucesso que não chega, mas que os passe sim, aos pulos, a gritar Eureka!

sábado, maio 11, 2013

Evolução

A mesa do café onde me reúno de demasia em demasiado tempo com os meus amigos, vai vendo os seus lugares serem ocupados aos poucos. Uma vez ou outra, junta-se à volta da fogueira inexistente uma pessoa que não foi previamente convidada: um encontro do acaso, que reconhecemos e que convidamos naquele momento para se sentar e pôr a conversa em dia... e normalmente, nestes casos há uma extensa conversa para ser posta em dia, normalmente com pontos de vista, vivências e opiniões bem diferentes daquilo que eu vejo, vivo ou penso.

Assim, fala-se de tambores gritantes, carroças musicais e ranchos populares tudo no seguimento do convite para comemorar uma festa de anos de um grupo que não me agrada, rodeado de uma bebida que não me mata a sede. Recuso o convite numa nota mental e digo oralmente que vou ver se consigo ir. Não fui!

Disse escrevendo, José Saramago, que contar dois acontecimentos que tenham ocorrido ao mesmo tempo é injusto para um deles, porque acaba por ser contado sempre em segundo lugar... Apesar disso, deverá ter sido à mesma hora que a festa estoirava na tenda ao lado do mercado que eu me apercebi de mais um fantástico e poderoso mecanismo de segurança do nosso pensamento.

Eu não vou à festa da carroça, da mesma forma que o bailante não trabalha para ganhar um prémio Nobel (bem, na verdade nem eu... mas gostava). Num instante, porque o pensamento tem a capacidade de ocorrer num espaço de tempo tão curto que as imagens quase surgem ao mesmo tempo, caras familiares lembram-me momentos pontuais da nossa vivência em conjunto. A ideia relembrada é de que "não vou conseguir, para que tentar?"

Quantas coisas recusamos à partida por sabermos que não somos capazes de as atingir? Encostamos-nos à sombra de uma ideia abanada, para não termos o desprazer de fracassar no caminho, de nos ferirmos na batalha ou de morrermos de bandeira branca erguida. Parece que nós mesmos, nos metemos a nós próprios apenas onde nós conseguimos nos superar... tudo o que for superior a isso é por nós imediatamente recusado. Quando mais acessível for o objectivo, menor a queda em caso de queda.

A questão em que interessa ainda pensar é quantas são as coisas que perdemos, por não nos metermos na posição em que nos devíamos ter metido? Corremos o risco de estagnar, se não esticarmos o pescoço o suficiente para chegar às folhas que estão onde apenas as girafas chegam. No que toca ao nosso desenvolvimento pessoal, intelectual e social, pelo menos... pelo menos a estes, as ideias Lamarquistas não são assim tão disparatadas.

segunda-feira, maio 06, 2013

P'la estrada fora

Qualquer que seja o motivo que me põe de pé no chão, a percorrer a estrada fora, viajo, quase sempre sozinho. Acompanha-me o GPS no bolso, ou o cansaço no corpo, ou o desejo numa mão que não está ligada a ninguém.

domingo, maio 05, 2013

Anestesia mental

Tenho um problema quando a dimensão da essência que me é arrancada é tão grande, que deixo de pensar. Pareço consumido pela grande casa fria, que, apesar de acolhedora, gela-me. Apercebo-me que sigo em modo de piloto automático, por entre os corredores longos de portas encostadas. Alheio a sentidos com sentimentos, alheio a pensamentos. Perco a condição de vida consciente quando sou conduzido entre as salas que me fazem deixar de pensar. Perco a condição de vida, quando nem ao instinto reajo, quando apenas sigo o rebanho, sem ser ovelha, sem ser pastor, sem ser cão, ou sem ser qualquer outro elemento deste quadro.

Sem pensamento, simplesmente deixo de ser.

Sempre admirei a capacidade humana de criar moribundos no momento certo. Ao menos, quando o cérebro se desliga e se anestesia do sentido de quem somos, evita um sofrimento maior. Sempre achei consolador, saber que quando não tiver capacidade para cuidar mim, não terei consciência de mim mesmo, como se um penso anti-dor fosse colado no meu orgulho. Agrada-me saber que tenho a aptidão para ser zombie quando sou raptado para junto de onde não pertenço.